A perda da espontaneidade — a perda de nossa essência?
Há algum tempo eu venho pensando na palavra "performar".
Cada vez mais, temos a necessidade de performar. Não que isso nunca tenha acontecido antes na vida de qualquer pessoa. Creio que a nossa maior fase de performance é a adolescência — mas aí somos movidos por hormônios, um cérebro ainda em desenvolvimento, necessidade de saber aonde nos encaixamos, quem somos, o que não sabemos. É um turbilhão. Nossos instintos dominam as nossas atitudes, ainda tão infantis e precárias, enquanto nos achamos as maiores e mais sábias pessoas caminhantes sobre as ruas.
Um adulto maduro e funcional, aprendeu que não pode ser ele mesmo em todos os ambientes em que existe. Há a versão profissional que difere da versão social e que difere de muitas outras versões de si mesmo. Podem existir tantas versões que quando um ato falho acontece, dependendo da inadequação de seu uso, podemos vivenciar aqueles sentimentos conhecidos pelo nome de vergonha, culpa, timidez.
E aí vem a primeira pergunta: qual a sua versão original? Quem a conhece? Você saberia reconhecê-la ao se olhar no espelho?
Ao escolhermos performar, escolhemos criar uma imagem de nós mesmos que pode condizer com a nossa realidade e, em suma, a nossa essência. Mas creio que esse não seja o caso. Vide, por exemplo, as pessoas que precisam de um pouco de álcool para se soltarem, serem mais simpáticas, mais leves e mais soltas. O ideal seria não precisar de nenhum tipo de estimulante para isso, correto?
Falando sobre mim, eu sempre fui conhecida como a pessoa que não tem travas na lingua, que fala o que todo mundo tá pensando mas não tem coragem de dizer. Alguns bons pares de anos depois, algumas coisas mudaram, mas outras não. Eu sou muito espontânea em minha alegria, minha empolgação que se transformam em falação, ideias mirabolantes, raciocínio rápido e elétrico. A energia flui e eu gosto dessa sensação, ela é extremamente prazerosa. E não: eu não preciso de nada para ser assim, basta estar na presença de alguém que minimamente brilhe da mesma forma, ou seja, alguém que seja ela mesma na interação.
E então entra a segunda pergunta: como ser assim em um mundo onde as pessoas escolhem performar e nem fazem ideia disso?
Ao entrar nos apps agora, notei algo endêmico: as pessoas não são elas mesmas, elas não sabem o que são, sequer sabem o que querem performar. Quer dizer, as pessoas querem ser alguém equilibrado, racional e emocionalmente. Mas como eu descobri isso? Ao dizer que quero apenas fazer amizade, sem quaisquer tipos de intenções futuras a curto prazo.
Hoje, eu conversei com uma pessoa, ao vivo e a cores, numa situação totalmente atípica (e não entrarei em detalhes maiores). Conversamos por cerca de uma hora. Eu fiquei tensa com a situação. E eu me peguei pensando nisso enquanto estava ali. Havia um sentimento de estranhamento por estar vivendo algo... simples e normal: duas pessoas falando de gostos em comum, conhecimentos em comum e... apenas trocando. Ninguém ali estava performando para mostrar o que não é (claro que algum nível de performance sempre existe, não sejamos ingênuos para não achar que não) porém, era claro, franco. Conversa que ficou ali mas que, para mim, ficará eternamente marcada, porque eu me senti mexida de uma forma distinta como há muito não sentia.
Nos apps, por eu não ter interesse romântico ao conversar com alguém, as pessoas simplesmente não investem seu tempo para performar comigo, me causando boa impressão ou tentando se mostrar figuras interessantíssimas e imperdíveis. Há falta de educação e gentileza porque para fazer amizades, não precisa estar sempre presente, não precisa cumprimentar e fazer as educações básicas. Amizades não precisam disso.
Acho que as pessoas confundem, porque até podemos ser assim com nossos amigos (ATÉ, não quer dizer que se deva) e dar perdido neles, não perguntar como está, não dar tchau. Então, qualquer pessoa que não seja um "contatinho" com provável interesse sexual e/ou romântico não vale a pena investir. É perda de tempo. Na verdade, é gasto energia em algo que não vai dar em nada: nenhum flerte, nenhum flerte de qualquer tipo, nenhuma excitação sexual pela brincadeira de teclar palavras de duplo sentido, mandar foguinho ou emoji de coração.
Em todos os apps que entrei, eu simplesmente não conversei com ninguém e/ou as conversas se reduziram a poucas frases sem finalização. Afinal, se uma conversa não começa com "adorei sua foto", não há conversa alguma. Errado? Não. Mas isso me assustou, confesso. Devo dizer que ainda estou assustada. Confirmando todas as teorias de que os apps são açougue humano virtual mesmo e que encontrar as raridades é missão impossível.
E o que eu estou fazendo lá? Aprendendo sobre tudo isso, claro. Agora, com uma nova perspectiva. Que, olha a ironia, me foi dada por essa conversa que tive hoje. Inesperada e que tocou em algo profundo dentro de mim.
Talvez essa pessoa com quem eu conversei também performe da maneira como descrevi. Talvez não. Isso não importa. Eu não performo, exceto nos raros eventos profissionais onde tento segurar minha boca, mas essa regra se vai quando eu me solto porque eu sou assim: o quente e vívido fogo sagitariano. Como segurar o fogo? Não segura. Eu sou sempre eu mesma em quase 99% do tempo.
Essa é a minha essência.
E eis algo que cada vez menos percebo nas pessoas.
Atrás de suas inúmeras máscaras performáticas, a essência das pessoas está escondida. Por vezes, quase apagada. Foi tão malcuidada e abandonada que não se sente mais.
Você sabe quem você é?
Você sabe o que pode oferecer ao outro, independente de saber se vai amar, fazer sexo ou ser amigo?
Você sabe onde lhe falta e onde você transborda?
Você sabe ser o que você tanto busca nas pessoas?
Muitas perguntas...
Aqui, deixo o registro dessa conversa, de olho no olho, de piadas singelas e assuntos seríssimos. Troca simples que pode acontecer com qualquer um. Um tipo de troca que eu busco com outros seres humanos e que vejo que a maioria esmagadora não tem conseguido oferecer.
Corta pra versão da Cris espontânea que falava tanto coisas legais como coisas não tão legais na cara das pessoas. Lembrei que essa Cris polêmica encantava... fiz muitas amizades. E também causava asco absoluto. Tenho pensado muito nisso esses dias, interessante, né? Eu acho interessante. O tanto de pessoas que tentaram gostar de mim, mas algum reflexo do espelho lhes dizia que eu devia ser descartada. Pensar nessa Cris me fez refletir se eu deixei de ser algo que não deveria, justamente para performar e ser aceita.
Acho que, em sua maioria, não! rsrsrs
Mas deixo aqui a reflexão: a sua chama interna é o seu bem mais rico e mais precioso. Não a diminua e não a apague por ninguém. Nem mesmo pelas suas próprias carências emocionais.
ps: as duas primeiras imagens foram geradas pelo NanoBanana do Gemini e a última imagem foi gerada pelo ChatGPT, todas a partir de prompts específicos meus.



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