A travessia

Hoje, dia 03 de junho de 2026, eu tive um sonho com muitos recortes esquecidos porém a imagem mais forte ainda reverbera aqui: a imagem de pessoas fazendo uma travessia. E eu queria compartilhar esse sonho além de toda a síntese que culminou enquanto eu ainda estava sonhando!

Já disse aqui em algumas ocasiões que meu maior desejo era o de poder saber desenhar os meus sonhos. Lembro deles com tantos detalhes que, se a arte existisse em mim, eu poderia transformá-los em retratos riquissímos de simbologia. Nunca consegui, além de fazer descrições da mesma forma que a gente faz quando se lembra de uma fotografia.

No entanto, hoje em dia, com a IA, é possível chegar um pouquinho mais perto disso... Dessa forma, uma vez mais, usando prompts e algum trabalho de lapidação, cheguei à imagem que vocês veem. Ela não é exatamente a imagem do meu sonho mas é uma leitura muito próxima.

No meu sonho, eu estava em um local de passagem, em que eu parecia espectadora de mim mesma. Sonhei com um local comum onde eu testemunhava o nascimento do meu apego ansioso e o consequente transtorno de personalidade borderline inserida dentro de uma família que não era a minha mas que, ali, era a minha família. Eu tinha muito amor e ao mesmo tempo não sabia o que veria no minuto seguinte. Isso me causava um receio de nunca saber o que esperar das pessoas mais próximas de mim. Foi algo interessante porque era como se fosse a narradora em primeira pessoa e a narradora onisciente: estou vivendo e estou testemunhando do lado de fora. Mas eu sabia que era temporário e tinha chegado a hora de ir. Começou a chover torrencialmente. Tentei me proteger da chuva em uma cobertura e, então, testemunhei algo: vi pessoas indo embora, passando por um caminho, para pegar seu ônibus. No entanto, esse caminho, de tanta chuva, tinha inundado! E as pessoas passavam assim mesmo: caminhando eretas, sem perder o contato com o chão, lentamente submergindo até ficarem totalmente debaixo da água à medida que faziam a travessia e, aos poucos, à medida que alcançavam o outro lado, emergindo novamente, sempre eretas, sempre ser perder o contato com o chão (ao invés de boiar, por exemplo, algo esperado) e seguirem impávidas. Eu sabia que estava frio, a água estava congelante. Mas todos faziam a travessia sem se importarem com isso, como se atravessar fosse um ato simples e comum.


E enquanto eu observava isso, pensei comigo mesma no sonho:
isso é um recado para mim. Um recado de que não podemos temer acessar e mergulhar na água, caso isso seja necessário para sair de um lugar para ir a outro. Arquetipicamente e simbolicamente, essa imagem é riquíssima! E eu, que analiso os meus próprios sonhos (aprendi o processo com a Halu Gamashi em 2023 e fui lentamente praticando à medida que sonhava), logo que acordei, impactada com esse sonho, entendi perfeitamente o que meu inconsciente estava me dizendo. 

Eu acabei de sair de um processo de burnout, juntamente venho de um longo processo de aprendizado de cura do aspecto Vênus em Oposição a Netuno que corta o meu mapa natal no eixo 4-10. Já escrevi exaustivamente sobre esses temas aqui praticamente desde a criação deste blogue, apenas variando a contextualização e os aprendizados que ia fazendo. Em muitos momentos, neste ano, fiquei pedindo ajuda, durante as minhas orações em Planeta em Oração, a respeito de como eu saberia se tinha aprendido ou não? Quanto eu teria aprendido? Como poderia medir isso? Com quem eu teria de conversar ou o que eu teria de viver para ter parâmetros. Me senti totalmente perdida. Totalmente desmotivada. Extremamente sozinha, sem ter uma escuta adequada que apenas conseguisse me ouvir e entender o que eu estava dizendo e não simplesmente me ouvir e apenas sorrir compassivamente mas sem entender patavina do que eu dizia.

Eu precisei desacelerar ainda mais. Eu precisei olhar de verdade para mim mesma, sem comparações, sem expectativas. Me desnudar ainda mais do que sempre me desnudei, mergulhar ainda mesmo sem saber se encontraria algo nesse pulo. Enquanto isso, passei por um leve processo de dissociação em que não tenho recordações firmes dessas duas, três semanas. O piloto automático me levou (ao menos meus hábitos consolidados de cuidado espiritual em nenhum momento foram abandonados). Não falei com ninguém ao mesmo tempo que precisava desesperadamente de alguém, apenas de um abraço.

Semana passada, finalizando a última semana de maio, já adentrando o segundo tempo do Ar, Gêmeos, um signo cuja energia é tão forte em meu mapa natal, algo começou a mudar. Comecei a ter mais lucidez para ver coisas simples que já estavam se operando diante de mim mas que ainda permaneciam não vistas. E me dei conta de algumas coisas:

1-) Eu sempre fui uma pessoa multitarefas. E sempre considerei isso um grande atributo pessoal. Faço três, quatro coisas ao mesmo tempo e sem cometer erros. Hoje? Eu faço uma coisa por vez, com calma, sem pressa, por mais simples e cotidiana que seja essa tarefa. Quando tenho que fazer duas coisas ao mesmo tempo, me sinto agoniada, porque é como se me tirasse de um eixo de centramento e equilíbrio. Fazer as coisas, uma por vez, não significa virar uma tartaruga, pensaria a antiga versão multifacetada minha. Pelo contrário. É fazer tudo com presença, bem feito e a compreensão de que tudo tem um tempo para ser dedicado.

2-) Eu sempre fui uma pessoa acelerada e estressada. E quem mora na capital paulistana sabe o tipo de energia criado pelas formas-pensamento, além dos vários tipos de densidades energéticas geradas por sentimentos de raiva, ódio, exaustão, violência. E outras muitas coisas que... estudantes de Halu sabem do que estou falando. Eu sempre me conectava muito rapidamente a tudo de pior que as pessoas estavam sentindo, retroalimentando um ciclo que me levou a lugares muito, muito ruins. Já há um bom tempo eu notei a diminuição gradativa e constante da minha não mais conexão com essa energia a ponto de, por exemplo, raramente testemunhar pessoas discutindo, brigando, acidentes etc., o que antes era bem comum.

3-) Eu sempre fui uma pessoa muito mas muito reclamona. E a gente sabe o que uma pessoa que reclama gera... Os reclamadores se atraem com uma força impressionante. E por vezes eu era a pessoa que contaminava os ambientes, pela minha aceleração, pela minha raiva, pela minha reclamação. Já há algum tempo, essas mesmas reclamações foram diminuindo a ponto de quando alguém começa a reclamar perto de mim, eu ofereço o outro ponto de vista que, sempre, cala as pessoas, fazendo elas refletirem, nem que seja por um breve instante, que a vida é muito boa com muitas dádivas mesmo quando muita coisa desafiadora acontece.

Eu realmente não tinha me dado conta de que tinha me tornado essa pessoa. E essa autopercepção veio assim, num piscar de olhos. Sem fogos de artifício, sem eureka, sem nada. Um sentimento veio, trazendo outro e outro e outro... e quando vi, fiquei impressionada mas não me achando a maioral. Ao contrário. Refleti o caminho que percorri, as boas práticas que continuamente repetia em minha rotina. Apreendi e aprendi.

Porém, antes do sonho da travessia, eu fiquei me perguntando como que você sabe quanto ainda falta para chegar ao outro lado. Existe o ponto final do outro lado? A travessia, então, não seria um ato contínuo de autoburilamento, autoconsciência, responsabilidades cada vez mais assumidas, ampliação dos bons sentimentos de amor e fraternidade? A travessia não seria a vida, a nossa encarnação em planeta Terra?

Também seria. Mas pode ser também este momento peculiar que estou vivendo. Eu sonhei com a travessia depois de sonhar com cadeiras e brotos. Havia um sonho insistente de cadeiras e anfiteatros constantes acontecendo. Ora eu no palco, ora eu na plateia, ora eu na lateral observando e aguardando a minha vez. Meu último sonho eu não tinha cadeira para sentar. Todos tinham seus lugares menos eu. O segurança me disse que eu pegasse um lugar qualquer e se caso o dono do lugar aparecesse, bastava trocar de lugar. Até uma cadeira quebrada, inoperante, tinha dono. Mas eu não tinha a minha cadeira.

E como em outro sonho anterior, corta para uma terra fértil. Nesse sonho mais antigo, sob meus pés, havia um pequeno pé de abóbora. 

Como assim? 

A simbologia do inconsciente, por vezes, é literal e autoexplicativa, quando você aprende a ouvi-lo, interpretá-lo e segui-lo, seu inconsciente se torna um comunicador simbólico autoexplicativo com mensagens claras e recados diretos para você.

Eu olhei aquele pé, meio mirrado, meio abandonado, mas que teimava em crescer sobre uma terra fértil. Dentro da abóbora, não vi sementes mas inúmeras formigas. Elas pareciam querer levar a abóbora para outro lugar. A simbologia da abóbora é poderosa para este ano de 2026. E em meu sonho mais recente, o da cadeira que não existia para mim, eu vi, na segunda parte do sonho, uma imensa horta no fundo do quintal da casa onde moro. Nesse quintal, havia inúmeros brotos de muitos tipos de verduras que cresciam sobre uma terra preta, fértil. Pé de alface, cebolinha, outras verduras. Eu fiz o máximo para não pisar nelas enquanto observei encantada aqueles delicados pés crescendo lindamente.

Então, se eu queria saber aonde me encontrava em minha travessia, se eu queria saber como fazer a travessia, se ainda faltavam aspectos para eu compreender que não consegui conectar em minhas reflexões pessoais, estava aí meu sonho para me mostrar.

Neste post longo, quis compartilhar minha mais recente experiência, depois de algum tempo ausente. Também estou me aproximando de meu próximo aniversário, o que sempre me revitaliza de forma intensa e poderosa. Fazer aniversário, como sempre disse aqui, é algo sagrado e motivo de comemoração e lembrete: viver é preciso.

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