Katsudon e os 30 anos da minha ida ao Japão
Não tinha percebido: neste ano, uma efeméride importante aconteceu em minha vida.
Trinta anos se passaram desde a minha ida à terra do sol nascente. O mês exato foi o final de abril, mas apenas neste mês que fui ligar as coisas. E, mesmo sem querer, "comemorei" essa data finalmente conhecendo um restaurante que talvez preparasse o katsudon exatamente da forma que comi no Japão.
Quando estive no Japão, vocês precisam levar em consideração que não existiam internet, youtube, instagram, influencers. As fotografias eram registradas em máquinas fotográficas analógicas, as ligações por telefone eram feitas nos orelhões e usávamos fichas. Tudo isso era o ano de 1996. Gravávamos programas em fitas VHS e ouvíamos músicas no repeat one rebobinando fitas K7 com gravações feitas de rádios.
No Japão, eu não conheci praticamente nada, apenas trabalhava e economizava, mas vez ou outra, quando o salário e a oportunidade permitiam (eu fui lá para trabalhar e juntar grana), comia algo barato e diferente. Uma senhora com quem dividia o apartamento, Mitsue, falava japonês fluentemente (ao contrário de mim) e uma vez ela me levou a um pequeno restaurante de bairro que ficava perto do prédio onde a gente morava.
Ela me ensinou a pedir e eu já não recordo se esse prato foi ela ou eu quem escolheu. Só sei que era tipo um PF marmitex. Algo barato, simples, para levar e comer em casa. E eu me apaixonei por esse prato. Conhecia, então, o katsudon — um bowl de arroz coberto por uma milanesa de porco cozida rapidamente em um caldo à base de dashi, com cebolas, finalizado com um ovo levemente batido e rapidamente cozido jogado por cima.
Eu não sei exatamente o motivo que me fez apaixonar por esse prato, talvez seja pela sua simplicidade de sabores, pois uma milanesa crocante cozida em um caldo saboroso ligeiramente agridoce e com cebolas fatiadas além do ovo por cima, tudo isso junto de um arroz japonês bem cozido... é mais do que comfort food. Para mim, se tornou uma lembrança afetiva agradável de se lembrar. E lembranças acolhedoras sempre estão relacionadas a alguma refeição gostosa, a um momento específico. Eu lembro que sentia muita saudade da comida de minha mãe (quando voltei ao Brasil, ela perguntou o que eu queria comer e eu disse que era o chuchu refogado com alho que ela fazia, veja) e sentia muita saudade de casa. Talvez seja essa mistura toda.
Anos se passaram e eu nunca mais pensei nesse prato. Provavelmente, nem sonharia que poderia comê-lo no Brasil. Muitas décadas distantes da explosão oriental pop que aconteceria na Liberdade, eu nunca tive o hábito de ir conhecer restaurantes. Comecei a me enveredar por essas searas apenas em 2005, quando fiz amigas que gostavam de comer comida gostosa, tinham curiosidade inata (como eu) e algum dinheiro para investir nesse hobbie. Nessa época, não tínhamos nada além de Ofélia e depois Palmirinha na tv aberta.
A partir de 2007 comecei a conhecer alguns restaurantes na Liberdade. Alguns deles, existem até hoje como o Hinodê, o Sushi Isao (que antes era Sushi Guekko — preciso voltar urgentemente lá, a dona sempre me reconhece, mesmo que eu deixe de ir por anos!), o Mugui. Fora desse entorno, não conhecia nada. Lamen? Deveria existir mas longe de todo esse hype de hoje.
Outros bons anos se passaram e as estradas da vida me afastaram de sp e dessa riqueza que é a gastronomia paulistana.Quando retornei, pouco depois da pandemia, a São Paulo em definitivo, comecei a ver o que o meu bairro de SP tinha se tornado. Não me lembro quando foi que relembrei do katsudon, que permaneceu esquecido em minhas lembranças. Certamente, devo ter me lembrado (e esquecido) quando vi o vídeo do saudoso canal Cooking with dog. E também este vídeo em baixa resolução mostrando um chef japonês preparando katsudon. Ambos os vídeos são de dezessete anos atrás! E estavam salvos em minha playlist no youtube! rs
Porém, quando a rede de fast food Sukiya (sim, eles são fast food de comida japonesa rs) veio para cá, fui experimentar. E a xereta, fuçadora e curiosa dos cardápios como me tornei, surtei quando vi o Katsudon. Não lembro quando fui comer, mas lembro até hoje do que achei: fraco. Era uma sombra longínqua do que é o verdadeiro katsudon. Lembro que estava extremamente doce, com uma milanesa extremamente fina, além do ovo molê (acho que nem era molê, de tão mole que estava rsrs que vinha na casca ainda, num pote à parte e a gente jogava por cima na hora. NÃO!!! Mas, mesmo assim, lembro que ainda comi por mais duas vezes porque desconhecia as outras possibilidades.
Lembro de ter chegado a pesquisar em quais lugares serviria esse prato. Mas qualquer lugar longe do metrô que requeira pegar outro tipo de condução, me desanima, então desisti.
Até que bem recentemente, após uma certa relutância (eu sou meio assim), conheci o restaurante Porque sim. E eu vi que eles serviam. Comi. E fiquei igualmente decepcionada. A milanesa estava fina, ruim, o resto até estava mais razoável, mas o ovo muito passado e sem o toque especial. Mesmo assim, ainda comi o prato outra vez.
Outros anos se passaram, algumas outras histórias e pessoas adentraram a minha vida, e graças à Tamires, o Kazu café se tornou meu preferido para encontrar pessoas. Lembro quando o Guti, que tinha acabado de se mudar para o Brasil, fez um vídeo lá. Fiquei impressionada. Olhei o cardápio do restaurante Kazu, vi que tinha Katsudon, vi que era caro e, pensando em todas as decepções que tive, simplesmente nem pensei na ideia de ir lá conhecer.
Até... a primeira semana de Junho.
Alguma coisa aconteceu e eu simplesmente trouxe a lembrança do Katsudon à tona. Alguns bons dias antes, falei muito com algumas amigas sobre o assunto. E, do nada, a lembrança virou assunto que virou desejo e obsessão. E eu tinha escolhido o novo lugar que eu experimentaria para saber se, finalmente, conheceria o katsudon tal qual comi no Japão.
Como sempre, Tamires e eu fomos ao nosso personal spot. Felicíssima da vida, fiz meu pedido. Ansiosíssima vi ele chegando à minha mesa. O visual era imponente, atraente e convidativo. Cheirei. Comecei a tirar fotos. E dei minha primeira bocada.
Lembra daquela cena do Ratatouille em que o crítico de gastronomia Anton Ego faz uma viagem no tempo ao comer a primeira garfada do prato? Eu me senti, mais ou menos, da mesma forma. Eu fiquei saboreando com os olhos fechados, sentindo as texturas, os sabores... por um breve instante, eu viajei no tempo 30 anos atrás.
O prato estava 95% idêntico ao que eu comi. A diferença é que o caldo não estava tão agridoce quanto eu esperava e o ovo estava mais duro que prefiro. O gengibre em conserva e o nori picado também não compunham o prato que comi, apenas cebolinha verde. De resto... o arroz estava cozido perfeitamente, um arroz de grão curto (como sempre deve ser, né?) macio e saboroso que absorveu o caldo. A milanesa estava alta, macia e suculenta, com seu empanado intacto mesmo após ser cozida no molho. Perfeição.
Tamires fez umas fotos minhas e eu fiz outras.
E uma nova memória afetiva foi criada com sucesso! Eu, que já gosto do Espaço Kazu por sua cafeteria maravilhosa, que atrai um público mais maduro e mais silencioso, servindo doces japoneses tal qual são servidos no Japão, com ingredientes importados e com a mesma proposta de doçura na medida certa e delicadeza no preparo. Já experimentei diversos doces, como o Mont Blanc, Tiramisu, Bolo de Morango, Matchá cake (meu favorito), Chiffon cake de chocolate e os choux cream, claro, com o melhor creme de confeiteiro (creme legere) mais delicioso que já experimentei. Todos os choux são delicioso, mas indico o tradicional e o de morango.
Além, claro das bebidas frias, com cafés e expressos bem tirados, limonada matchá — uma de minhas bebidas favoritas.
Algumas horas depois, voltando para casa, foi quando me dei conta de que algo muito especial, muito mais do que esperava, tinha acontecido. E eu fiquei muito feliz por ter tido esse privilégio de conectar duas épocas tão distantes, construindo uma nova lembrança com uma pessoa que me é muito especial em tantos aspectos.
Acho que isso é o melhor da vida, certo? Já contei algumas histórias do Japão aqui, mas faltava essa, história afetiva e gastronômica, para ficar registrada aqui.
Conheçam o Espaço Kazu! Super recomendo.




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