Uma falta que sinto...
... sinto falta de me apaixonar.
Chega a ser inacreditável me ouvir e me ver escrevendo isso, mas é a mais pura verdade. E este post será outro tipo de post de blogue mesmo, confessional e com o simples propósito de desabafo.
Hoje abriu um sol. Céu azul. Muito, muito vento. Cigarras cantando. Me veio uma paz. Faz tempo que não sinto a paz pela paz, sem um motivador. Paz apenas por olhar o céu azul e sntir o vento forte no rosto. Isso me trouxe paz. Eu gosto de vento, ventania. Sempre gostei, sempre gostarei.
Nesses dias nublados, vez ou outra me vinha uma pequena, mas bem pequena vontade de escrever um post. Também tem um tempo que os posts diminuíram a intensidade como se uma parte minha não tivesse mais o que dizer. No plano real, estou tão solitária que nem com a IA mais eu converso. Converso pouquíssimo. E sei o quanto isso não é saudável.
Então fui me dando conta de que não sei mais o que é me apaixonar. Paixão pela paixão, aquele fogo de encantamento por algo que fascine, cause curiosidade, desejo de saber mais, sabe?
Poucas coisas me chamam a atenção agora.
Eu não deixei de ser emotiva, muito pelo contrário. Minha emotividade continua plena e muito abundante. Minha sensibilidade então nem se fala.
Mas minha capacidade de encantamento praticamente caiu a zero.
Ainda estou aprendendo a lidar com isso.
Trata-se de um mundo novo, em que não sou mais comandada a torto direito por um Netuno viajante na maionese que a vida toda me fez confundir alhos com bugalhos. A vida toda me fez ter lentes de cor de rosa onde se exigia lupa e realidade. Me fez acreditar e ter fé e esperança em navios naufragados.
De tanto usar e abusar disso, hoje eu não sei mais o que é ter esperança e fé. De tanto me basear minha força de recuperação nisso, eu caía e me reconstruía mas a base era tênue e ilusória, nunca iria me ajudar, apenas começar um novo capítulo velho com verniz nova e todo o resto velho, decadente e precisando ser destruído para algo novo verdadeiramente nascer.
Eu sempre fui uma apaixonada platônica. E não apenas de pessoas mas de tudo.
Minha vida foi uma vida inteira construída e conduzida em um castelo de areia feito sobre uma mesa de ar.
O burnout me trouxe um cansaço não apenas de algo específico, mas de minha vida inteira.
Vivi um longo luto e sinto que agora estou começando a sentir novos ares. Primavera chegando.
E eu me vi sentindo falta de me apaixonar. Me apaixonar por uma ideia. Por um projeto. Por um filme. Por uma canção. Por um breve encontro. Por uma mulher, até.
Mas a cada vez que essa ideia surge eu simplesmente não tenho vontade de dar prosseguiimento a ela, em especial, a conhecer pessoas para qualquer aspecto da minha vida. Podemos dizer que estou uma mistura de cética, cansada, sem fé e sem esperança. Sei que isso não produz um campo eletromagnético bom, mas não quero mentir para mim mesma como sempre fiz achando que o amanhã vai trazer algo bom, porque eu não quero mais ser assim.
Porém, de alguma forma, senti falta de me apaixonar por alguém.
E me lembrei de todas as vezes que me vi nesse instante... o algo correspondido, o futuro em aberto, as curiosidades pungentes, o desejo de troca intensa e contínua. Eu acho que sinto falta das minhas versões antigas que por quase 50 anos viveu dessa forma. Minhas versões antigas tinham uma doçura e ingenuidade tão puras. E eu permiti me deixar abusar. E eu permiti tanta coisa....
Não perdi a confiança nas pessoas mas não nego que não consigo mais acreditar nelas. Claro, sigo sempre acreditando que dentro de cada um de nós há uma bondade, uma luz, uma centelha divina pura... porém, todos estamos maculados, machucados, perdidos. E ao pensar nisso, imediatamente não tenho mais vontade de conhecer ninguém. As pessoas se tornaram previsíveis? Para mim, neste exato momento da minha vida, SIM.
Mas curtirei essa paz. É bom poder senti-la de volta, aos poucos...



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