Clique

A arte de envelhecer

 Esta ideia surgiu em minha cabeça como parte das reflexões que vêm surgindo desde que tenho um pai acamado, em decorrência de um AVC. Comecei a pensar o que levaria, em teoria e pura especulação, uma pessoa aos 79 anos chegar ao estado físico e mental de uma criança de menos de 5 anos?

Tem tantas variantes possíveis de análise, não dá nem para começar... mas eu vou esmiuçar um pouquinho apenas o caso que presencio aqui. Analisar meu pai tem me dado muita matéria interessante para eu me autoanalisar: sem essa imagem de pai-herói (que nunca tive e creio que teve um lado bom nisso, recentemente escrevi um post sobre pai ausente, o meu pai, no caso) ou mesmo quaisquer outras imagens clichês prováveis.

A primeira coisa que as pessoas dizem é "velho volta a ser criança", mas por que as pessoas afirmam isso com a maior das naturalidades? Isso não é esquisito? Para mim, sempre foi esquisito no entanto como o assunto nunca me interessou na época, nem fui atrás para tentar entender. Outra coisa que mitificam muito é o sentido de família que se cria em torno de um idoso "filhos são a previdência privada dos pais". Não sei se vocês já ouviram isso, mas queria lembrar onde foi a primeira vez que ouvi esse termo e ele fez tanto sentido! Foi numa matéria, Uol talvez, lida há alguns anos. Se a encontrar, ponho o link aqui.

Atualmente, todos têm ciência disso, somos um país com mais idosos e isso traz inúmeras consequências: maiores filas no banco, maior necessidade de atendimento preferencial, maior cuidado com uma população que dependendo de como viveu a vida, não tem ninguém além do Estado para ser provedor de um mínimo de dignidade para sobrevivência.

Há bem pouco tempo, idosos têm preferência aonde quer que vão: sempre recebem atendimento prioritário. Mas se pensarmos apenas nos idosos ativos. E os que dependem exclusivamente de alguém para fazer tudo para eles?

Aí, encontrei este artigo na área de Enfermagem chamado Envelhecimento ativo e sua relação com a dependência funcional. É curtinho, dá para ler em dez minutos. Ele traz um panorama de estudo econômico, educacional e social para correlacionar a independência funcional de um idoso. Não podemos nos esquecer que os idosos na faixa etária do meu pai, por exemplo, nasceram antes ou durante a segunda guerra mundial: uma época tão diferente da que vivemos hoje, que pareceria viagem no tempo.

Mais uma vez, retomo à questão de como as crianças foram educadas nesse período, onde todo mundo tinha pelo menos cinco filhos e os milhares de imigrantes fugidos da guerra que se estabeleceram pelo país todo. Fome, condições precárias de sobrevivência. Muitos conseguiram se estabelecer bem... a que custo?

O que penso enquanto divago com todas essas informações é quanto sacrifício esses pais viveram e como eles criaram seus filhos que, hoje em dia, são os avós de alguém? Quanta dor foi herdada e repassada nas mais variadas formas de codependência emocional?

Bem, como disse, é impossível aprofundar um assunto em um texto com alguns parágrafos; então, voltando ao meu pai, como nada sei da sua infância, o que sei é o seu mapa natal e um pouco do que me foi repetido (mas sem sabermos se é verdade mesmo), TUDO que vivi de bom e de traumático com ele, e analisando a relação dele com a família dele (irmãos e sobrinhos) essa atitude clássica de "voltar a ser criança" além de demonstrar fuga da realidade, pedido desesperado de ser o centro das atenções, e imaturidade emocional e financeira total vivida ao longo de toda a existência (financeira, sim, porque se tivesse dinheiro poderia fazer como velhos endinheirados com muitos empregados à sua disposição ou, nem muito, mas uns dois) ALÉM DO PRINCIPAL: fuga da responsabilidade pessoal com a própria vida.

FUGA.

Algo que todos nós adoramos fazer quando estamos acuados e estressados na nossa vida diária. Por que um idoso também não faria isso? 

Então, dedico este post ao senhor com quem compartilhei uma vizinhança de apartamento, em 2011, quando morei em Niterói, Rio de Janeiro. Tinha o perfil totalmente diferente do meu pai: sozinho, não bebia nem fumava, tinha situação financeira confortável. E ouvia muita, mas muita música clássica. Vez ou outra eu encontrava com ele nas escadas, educado, não invasivo.

Um belo dia, o zelador bateu à porta comunicando que o senhor tinha morrido: suicidou-se. Parece que tinha uma filha que morava longe. Ela deu por falta de notícias dele, foi quando descobriram que ele também fugiu, por conta própria. Aliás, vocês sabiam da alta incidência de suicídio em idosos? Alguém se lembra do caso midiático do Flavio Migliaccio?

Este assunto está longe de ter uma conclusão. Porém, a que faço agora é esta: você é o que você vive, não importa a fase de sua vida. Ser jovem ou velho é uma mera questão de tempo e idade. No caso do meu pai, uma vez mais, nada me surpreende (infelizmente) porque esta sempre foi a imagem que eu tive dele a minha vida toda. Agora, ele apenas a continua ratificando. Por única opção dele próprio.