"A boa fama dos japoneses"

Vou compartilhar com vocês uma historinha que vivi hoje cedo. Uma historinha que ligou algumas reflexões que já vinha fazendo.

Numa lojinha de doces, onde sempre me abasteço das drogas pro dia, peguei um resto de conversa do dono, evangélico (a tv da loja está sempre ligada no programa da Igreja Internacional da Graça de Deus), com a filha: "Porque as pessoas não saúdam, não louvam, não agradecem. Tem saúde, dinheiro, casa, comida, emprego." 

Concordei. Como sou cliente cativa, a gente dá aquele sorrisinho simpático, misturado com bom-dia. Aí, eis que ele fez algo que nunca tinha feito antes: me incluiu na conversa. Porque eu já tinha presenciado conversas assim, mas nunca fui participante ativa, apenas ficava ouvindo.

"Porque os japoneses, sabe [disse já olhando para mim. Ao menos, não me confundiu com chinesa e coreana (com todo o respeito!)], eles não são assim. Eles são unidos. Quando alguém, amigo, parente ou conhecido, têm algum problema, eles ajudam. Eles são unidos [o que é verdade, e eu assenti]. Veja, mesmo eles louvando a Buda, eles são assim.]

Bem, a conversa continuou e eu apenas concordei. Em geral, não sou daquelas pessoas doutrinadoras das ruas. Sou daquelas que falam aos que querem ouvir. E que, no geral, apenas ouve e concorda (mesmo com vontade de discordar). Mas, sem mudar o assunto, achei interessante a visão dele sobre os japoneses (bastante real) e o aparte 'mesmo eles louvando a Buda'.

Uma informação essencial (e, para saber disso, ele teria de pesquisar e se informar a respeito) é que a imensa população japonesa é xintoísta (seguida de budista, católicos e outras religiões, como diz dados da própria embaixada japonesa.

Interessante, o ponto de vista das pessoas em geral em relação aos japoneses. Eu sempre ouço essa de "eu admiro vocês". Okay, de fato, os japoneses possuem qualidades incomparáveis. A união e a organização, por exemplo.

Muita gente tira os japoneses por honestos e legais apenas pela "boa fama" da raça. Veja bem, "boa fama da raça" para mim, é algo tão preconceituoso e vulgar quanto chamar um negro de "preto sujo". Não existe isso!!! Japoneses são seres humanos como qualquer outro ser do planeta Terra.

Uma rápida lida em livros de História mostrará o que os japoneses fizeram com chineses e coreanos no fim do século 19: os chamados "crimes de guerra japoneses". Isso não é divulgado e, eu mesma, só fui saber disso muito tempo depois. Não há louvor nenhum na guerra e muito menos no que os japoneses fizeram a chineses e coreanos.

Mas se isso foi uma lição a ser aprendida, após o sofrimento da Segunda Guerra Mundial, uma coleção de mangás foi escrita por um dos (senão o maior ícone) sobreviventes:  Keiji Nakazawa. O mangá se chama Gen, pés descalços. Tem versões em desenho e filme que podem ser acessadas livremente no YouTube. O livro pode ser comprado no site da Conrad. E vejam o filme!

Enfim, este foi um post que nem nasceu para ser post de blogue, mas post de facebook. Mas achei válido deixar registrado esses meus pensamentos aqui. Esses últimos dias têm sido bem profícuos e minhas reflexões estão a mil. A quem tiver chegado ao fim deste post, aguardo comentários sobre o seu ponto de vista em relação aos japas. Evitem o clichê, aliás, sim? ;)

5 comentários:

Zuleide disse...

cris,tenho sim,a impressão que os japoneses são mais reflexivos,controlados,não têm esse imediatismo latino.São capazes de esperar o tempo certo para realizarem algo ou se manifestarem sobre algo.Confesso que ainda me surpreendo quando os vejo com os cabelos coloridos,com maquiagem que espalha os olhinhos puxados,com roupas coloridas,mas,ainda assim,por trás disso tudo,percebe-se um povo coeso,determinado...

Zuleide disse...

...e essa determinação vale para o que é bom ou ruim.Resumindo:Amigos perenes.Inimigos poderosos.

aline naomi disse...

Olha, confesso que acho essa "boa fama dos japoneses" uma coisa altamente positiva (hahaha).
Sinto que passamos uma boa impressão por não ser supercomum vermos descendentes de japoneses assaltando bancos, furando filas, bebendo e matando outras pessoas no trânsito, traficando drogas ou órgãos humanos e fazendo uma porção de coisas erradas segundo o senso comum. Claro que esse tipo de gente existe, mas não vemos todos os dias - pelo menos, eu não vejo e não ouço falar delas. Acho que é mais comum vermos descendentes "ralando", estudando e trabalhando duro para ter uma vida melhor e/ou para atender às expectativas dos pais ou às próprias.
Quando conheço outros descendentes a minha guarda baixa um pouco (apesar de gostar de conhecer pessoas, quando conheço estranhos, sempre tenho receios, não consigo confiar logo de cara, a confiança vem aos poucos) é menor porque fico imaginando que essas pessoas tiveram uma educação mais ou menos igual à educação que meus pais me deram (em relação a valores morais e distinção entre certo e errado) - talvez seja uma ilusão, mas, por incrível que pareça, até agora não tive experiências desagradáveis, ruins, péssimas com amigos descendentes. Todos que conheci até agora são confiáveis, leais e sei que, quando eu precisar, provavelmente me ajudarão se e como puderem. Por outro lado, a maioria das pessoas que conheci é assim também (independentemente de serem orientais ou não), talvez sorte, talvez acaso, as pessoas com quem me relaciono nunca me decepcionaram moralmente falando.
E tenho uma leve impressão de que as empresas gostam de descendentes por essa "boa fama". O editor com quem trabalho, por exemplo, contou que teve uma secretária japonesa no passado que era superconfiável (ele deixava o cartão de crédito para ela usar quando precisasse comprar coisas para o departamento, acho que era ela que controlava os gastos) e, talvez por essa boa impressão, achou que seria uma boa ideia me contratar também. =D
Acho que o fato de os descendentes fazerem sempre as coisas "certinhas" e, em geral, serem honestos, contribui para uma boa imagem do povo como um todo. O que eu acho ótimo, porque não preciso ter vergonha das minhas origens (como às vezes tenho vergonha pelas coisas erradas e ruins que brasileiros fazem no exterior - como aquele cretino que avisou a polícia que no voo EUA-Brasil tinha uma bomba... e era mentira, porque ele queria ver o que aconteceria ou quando vez ou outra aparece na mídia que uma brasileira engravidou de um estrangeiro para poder ficar em algum país de Primeiro Mundo para sempre - e, de certo, acabam por nos denegrir, enquanto brasileiros, de forma geral).

Crisão disse...

Muito interessante, Aline, e muito válido seu comentário! Eu pensei em incluir isso, dos japas andarem em grupo mediante essa 'facilitação'. Mas nunca fui de andar em grupos, MUITO MENOS DE JAPAS! Mas tá valendo!!! rs

Crisão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.