Assunto: depressão

Confesso que esses últimos dias venho pensando no projeto que acabei abandonando no ano passado: uma série de posts sobre depressão. De repente, nem preciso de uma "série de posts" mas apenas de um post com alguns tópicos relevantes. Arrisco aqui umas considerações muito pessoais sobre o assunto, já que nem de perto tenho qualquer embasamento técnico para versar. 

1) Depressão é como lepra.
Há, de fato, uma espécie de sentimento generalizado quando alguém assume estar com depressão. As pessoas sentem pena, dó e, preferencialmente, se distanciam de você, porque depressão parece ser algo extremamente contagioso, transmitido pelo ar e por qualquer espécie de contato físico: sim, depressão é o vírus da pior espécie possível.

2) Depressão é frescura.
Também é fato que a maioria de nós vê um depressivo como alguém que "precisa levar uns tapas" para se encaixar na realidade. Falta do que fazer, falta do que pensar. Mal-agradecido. Mimado. Uma pessoa que tem saúde, tem dinheiro, tem de tudo e não deveria estar "depressivo" porque não sabe reconhecer tudo que tem. Assim, as pessoas acabam julgando o depressivo como alguém que está com tempo de sobra e, como não tem o que fazer, quer chamar a atenção.

Muitos especialistas afirmam que a depressão é o grande mal do século 20. É uma doença silenciosa, diretamente não apresenta sintomas físicos e ela começa pequena, quase imperceptível. Um diagnóstico tardio e grave só poderá ser percebido quando a pessoa decidir terminar com a própria vida.

Eu acredito que todos nós temos algum nível de depressão. Uns lidam melhor com ela. Outros a combatem com tamanha maestria que ela vem e passa longe. Já a grande maioria acaba perdendo essa batalha e, creio eu, uma vez que você tenha tido depressão, é como se ela instalasse um acesso eterno dentro de você e, caso você não saiba fechar essa porta corretamente, ela poderá entrar a hora que quiser e com a força que quiser.

Penso que uma vez que você tenha tido depressão é como você tivesse de conviver eternamente com ela dentro de você. Uma espécie de cicatriz que sempre alcançará aquele estágio final de cicatrização mas que nunca cura completamente. Então, dependendo do que você estiver vivendo, a depressão pode encontrar o acesso que queria para voltar e se instalar com fúria total.

Qual a solução? Não sei. Existem diversos tipos de saída disponíveis, mas não creio em cura total. Digo que deve haver uma eterna e constante vigilância sobre si mesmo. E nunca, nunca, nunca desdenhar da depressão. Não importa que amigos, familiares ou pessoas próximas tratem dela com desdém, você nunca deve subestimar a força da depressão. Creio que, talvez, precise aprender a conviver com ela, como uma outra persona sua dentro de você mesmo. Esquizofrênico? É a melhor resposta que eu encontro para mim mesma.

Pois a depressão é a ausência total de sentido na vida. Ausência total de sentimentos pela vida, seja amor seja ódio. É olhar para tudo e ficar se perguntando onde está o sentido e não ter nenhuma resposta. Nenhuma resposta. E você não precisa estar solteiro, não precisa estar morando na rua ou ser uma pessoa sem um bicho de estimação. Por isso as pessoas dizem o que eu citei acima quando veem alguém que parece estar depressivo. Depressão é a ausência total de qualquer tipo de paixão pela vida. É a vontade de apagar as luzes de um quarto já escuro, sem janelas, sem portas e sem iluminação.

Bem, voltando a pensar em solução, remédios, psiquiatras e psicólogos ajudam. Mas, talvez, a melhor solução para o primeiro passo para lidar com isso seja tentar reacender a maior paixão, algo que a pessoa ame (ou tenha amado) muito: um estudo, um lugar, um animal de estimação, um hobbie, um filme... qualquer coisa. A falta de sentido ainda existirá mas poderá ser amenizada aos poucos em troca de um sentimento que não irá substituir muito menos entrar em competição com a depressão: coexistirá com ela.

Considerações finais: bom, talvez tenha dito muita besteira, mas o que disse foi baseado em minhas observações pessoais comigo mesma, na minha depressão e na convivência -- perto ou distante -- com outras pessoas com depressão. Espero voltar em breve a falar sobre o assunto. E meu pedido: um depressivo não é alguém que está pedindo por sua ajuda mas é alguém que precisa da sua ajuda.

3 comentários:

Giselle Marangon disse...

Cris, muito bom post para alguém sem conhecimentos técnicos. Também não os tenho...e já pensei de um depressivo/a, confesso com tristeza e mea culpa, alguns dos itens que descreveu. Porém, fui buscando esclarecimentos e hoje respeito e me solidarizo. Depressão é tudo menos frescura. E quem acha que é frescura, é um ignorante!! Depressão é doença e precisa ser tratada. As pessoas precisam de ajuda e muitas nem sabem que a tem e nem como pedir esta ajuda; portanto, ao invés de apontar o dedo...estender a mão a uma pessoa depressiva pode ser o primeiro passo e o estímulo e a primeira ajuda que possamos dar.

Enquanto Allan Lucena disse...

Menina, você tocou no assunto de forma muito sensível e feliz.
De alguém que passa por depressão, que tem mais gente na família com o mesmo problema, acredite, acertou em cheio. Especialmente no seu pedido: precisamos de ajuda!
É muito difícil sair da depressão sozinho, afinal de contas, o principal problema que a depressão causa é a perda de sentido de continuar vivendo. E isso é uma completa desesperança. Não é só solitário, é vazio. Vácuo. Fim. Ladeira abaixo.

Se você acha que a pessoa está com frescura, mesmo assim cuide. Na dúvida, você depois tira sarro da cara do frescurento, tire sempre um sorriso de uma carência, você vai curar ainda mais a pessoa. Se não for frescura, você vai ter salvado uma vida. E só de pensar nisso, já me basta para ter forças de cuidar de alguém.

Há um propósito pra tudo. Salvar alguém dá propósito para quem não tem. `^^´
Beijos do Elfo!

Anna Paula Andrade disse...

Muito bom o texto... Muitas de suas palavras descrevem o que vivi e às vezes vivo... É difícil lidar com a depressão. Os remédios ajudam, mas se você mesmo não se erguer, não tem medicação que ajude...