Encontros, desencontros, caos e essências nos apps
Estou com uma reflexão pungente me corroendo por dentro.
A imagem não soa agradável, mas desde o meu post da Travessia, percebi que ainda havia mais a escrever. Muito mais. Por vezes, eu vejo as coisas com uma lucidez que me faz questionar se eu não estou exagerando ou se estou vendo tudo sem as velhas lentes cor de rosa netunianas que usei a vida toda. Ver, viver e testemunhar a vida sem as ilusões netunianas me fez pensar que eu poderia me tornar uma pessoa fria, calculista e fechada. Não vou negar que por vezes me sinto assim sem nenhum prejuízo de ética. E tenho que admitir que os óculos cor de rosa nunca deixaram de existir... mas foram colocados em seu devido lugar.
Procurar conhecer pessoas em um app tem me mostrado algo talvez tenha sempre existido: encontros e desencontros.
O que eu não tinha visto com tanta riqueza de detalhes é a situação que as pessoas estão e o que as motivam a se cadastrar. Há uma doença generalizada que tem deixado todos cada vez mais descoonectados de si: a velocidade das informações, as distrações constantes, as demandas cada vez mais cruéis, a alimentação cada vez menos saudável, o total esquecimento do que é espiritualidade e o reencontro com a própria essência, Quíron em Áries trouxe à tona uma geração inteira de homens com masculinidade frágil e doentia. E toda a passagem de Peixes para Áries tem revelado o que sempre esteve ali.
E nesse mundo caótico repleto de seres caóticos viventes, os apps de relacionamento parecem ser a saída mais fácil para a busca de algo, mesmo que muitos não saibam o que querem claramente. Uns querem se divertir apenas, outros querem conversas leves, divertidas e inteligentes — quem não quer? Todos, sem exceção, querem pessoas com responsabilidade afetiva, estabilidade de modo geral, fotos bonitas e instagramáveis no perfil, ter consciência de classe e ser defensor de alguma causa.
Quando a gente lê um perfil assim, pressupomos que a pessoa é capaz de oferecer o que ela pede, certo?
LEDO ENGANO
E aí que o negócio fica interessante e o angu começa a encaroçar.
Essas pessoas estão:
1. carentes;
2. com dificuldade de socialização;
2.1 por causa de uma mudança de cidade;
2.2 falta de tempo por excesso de trabalho — o mais comum;
3. fim de relacionamento — não elaborado, onde a pessoa corre pro app para tapar o buraco da dor flertando com outras pessoas;
4. precisando melhorar a autoestima;
5. comecando fase nova, vida nova — aí fica difícil saber, pode ser algum dos itens anteriores ou uma informação não compartilhável;
6. encalhadas nos apps porque ou são exigentes demais ou zoadas demais.
Acredito que os apps oferecem a possibilidade de conexão com os mais variados perfis com os mais variados propósitos e tudo bem. Tudo bem se enquadrar em algum dos itens anteriores. Tudo bem.
Mas me diga: o que essas pessoas teriam a oferecer em troca? A troca seria justa? A troca seria recíproca? Haveria educação e gentileza? Maturidade emocional? A propósito, o termo muito comum "terapia em dia" quer dizer tanto quanto "recebi alta da terapia" ou "finalizei a terapia porque não tinha mais nada a dizer". E isso não tem nada a ver sobre terapia.
O grande mal de 2026 é o fato das pessoas não conseguirem se aprofundar e precisarem desesperadamente viver na superfície. E eu também super compreendo isso. Como que você vai ter condições de fazer algo que exige presença, conexão consigo mesmo e muito autoamor e autoacolhimento? Não vai conseguir. Não neste mundo que exige exatamente o oposto de você: não pense, não questione, não reflita, não sinta. Seja apenas músculos, suor e sangue. Um corpo que pode ser substituído facilmente se padecer.
Para isso, é preciso entrega. É preciso desnudar-se para si mesmo. É preciso buscar a espiritualidade, o autoconhecimento, longe de religiões e dogmas, e voltar-se para a sua essência mais pura.
E, a este ponto, você já deve ter notado que o teor do meu texto está totalmente indigesto para a maioria esmagadora das pessoas. Eu sei. E este registro precisa ser feito. Por isso a urgência de escrevê-lo.
As pessoas não se encontram mais.
As pessoas performam uma imagem que elas gostariam de ser mas não são. As pessoas esperam que o outro seja uma imagem nada performática do que elas gostariam de conhecer. E como li num perfil de uma moça: quero conversas em que não sejam duas pessoas falando de si sem ouvirem o outro.
Isso me deu um estalo violento.
Porque é sobre isso.
Só que o "isso" não é algo simples de resolver. As forças eletromagnéticas puxam para os dois lados: o lado da luz e o lado do embotamento. Racionalmente, as pessoas não querem ser robôs ou zumbis, mas essa decisão quase nunca é feita pela mente, mas pelo coração. Ela precisa ser sentida no corpo.
É preciso silenciar para ouvir o silêncio.
Escrever esse póst me faz perceber que eu consegui alcançar um ponto importante de minha travessia pessoal rumo à cura do meu eixo Vênus-Netuno/ 4-10. Sinto uma empatia profunda pelas pessoas. Porém, não acredito mais em potenciais sem ação concreta. Compreendo perfeitamente tudo que as pessoas estão vivendo, porém, não vou me diminuir para caber, não vou oferecer minha sanidade para a cura do outro, não vou doar (como uma boa canceriana com ascendente em peixes faria sem titubear e como eu já fiz!) minha parte mais pura acreditando que, assim, eu mudarei o outro. Ninguém pode mudar ninguém.
A mudança pessoal nasce de um lugar muito íntimo que, infelizmente, só floresce depois de sentir muita, mas muita, muita dor.
Eu não desisti das pessoas, nunca. Mas, a cada dia que passa, sei o meu lugar neste mundo e o lugar dessas pessoas na minha vida. Um minúsculo degrauzinho por vezes, que celebro com agradecimento humilde... porque só quem me conhece de verdade sabe tudo que eu vivi para chegar aqui, aos quase 49 anos de idade, depois de quase ter destruído a minha essência, a minha vida e quase ter ido de arrasta pra cima.
EDIT: me ocorreu que essa imagem que criei no ChatGPT a partir de prompts meus, conversa diretamente com o arcano menor Dois de Copas. Não tinha me dado conta disso e agora, vejo que é uma releitura de um arcano que simboliza reciprocidade, amor, troca. Na minha imagem, vemos exatamente o oposto disso. Tire suas próprias conclusões.




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